sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

SÓ UMA PALAVRA ME DEVORA...


É impressionante como certas coisas mexem profundamente com a gente. Pessoas, objetos, atos, música... Não importa quanto tempo passe. Torna-se um carimbo. Uma vez posto fica pra sempre registrado. Marca como ferro em brasa.

Desejo aqui falar de música. Mais uma vez a música. Esse item tem um peso fantástico, capaz de agregar à composição valores, momentos, histórias sentimentos, desejos, sonhos, ideologias... Agrega em si significados que atravessam o tempo e vai gentilmente se adequando ao que se tiver no momento.

Periodicamente vamos recuperando na memória situações destas que funcionam como um ativador de emoções construídas num dado instante e que se confirmam na hora da afirmação do desejo.

Abre-se uma janela nesse itinerário e as lembranças vêm e se reinstalam objetivando uma reforma íntima e sugerindo um desfecho ou uma vivência plena daquilo que ficou para trás e achava-se terminado.

Uma música em especial vem permeando meu universo existencial de forma insistente e contundente – Jura Secreta. Vem ecoando em meus ouvidos num crescendo um tanto quanto perturbador. Onde quanto mais escuto, mais quero escutar.

Perguntava-me todo o tempo o que ela queria me dizer. Qual a mensagem que estava passando. Porque me tocar tão fundo agora? Fui observando o sentimento que se desenhava e vendo a letra e as diversas interpretações já feitas. Além de procurar ver o contexto social do momento.

Busquei analisá-la seguindo as pistas dos signos impressos na melodia; na letra; nas interpretações. Ela chega de início como um lamento, um choro, uma solicitação, um arroubo de um desejo não concretizado.

“Só uma coisa me entristece/o beijo de amor que eu não roubei/a jura secreta que não fiz/a briga de amor que não causei”

Isso me diz que eu e tantas outras pessoas não experienciaram isso. Não viveram esse arroubo de juventude e há uma saudade impressa no ar desse experimento passado em branco nas maneiras de se expressar da juventude tardia.

Num segundo momento entendo como uma confissão de uma dor intensa, de um sentimento desejoso de ser vivido. Mostrado em tanta expressão de insatisfação nas relações, em tanto vazio existencial, em demonstração de incompletude, em tanta busca desenfreada pelo par perfeito, pelo amor ideal. Uma busca e um medo de formar vínculos fortes e duradouros.

“Nada do que posso me alucina/tanto quanto o que eu não fiz/nada do que quero me suprime/do que por não saber ainda não quis”

Denota certa impotência, mas sugere uma busca intensa e profunda. O desafio do não vivido, que muitas vezes nos assombra feito fantasma arrastando correntes nos corredores dos nossos velhos castelos.

Então ao final, a solicitação. O pedido de desfecho de consecução do desejo. A palavra anônima, que devora, que deixa impressa na alma o mistério da busca ontológica de afirmação da existência humana, o amor, o outro.

“Só uma palavra me devora/aquela que meu coração não diz/só o que me cega, o que me faz infeliz/é o brilho do olhar que eu não sofri.”

Há uma necessidade de compartilhar, o desejo de uma alucinação consciente; uma vontade de nos suprir pelo prazer de partilhar. Experienciar o perder o chão, o estremecer das bases e a certeza talvez do retornar do mergulho interno no final. Mas embora desejos disso, sucumbimos ao medo de ser, de se deixar ir, de se permitir sentir... Só uma palavra me devora...



2 comentários:

  1. Pois é, nesse caso, a música é só um detalhe...
    Belo texto!!
    Beijos e, no+, MÚSICAEMSUAVIDA!!

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